| Assessoria de Imprensa |
Em artigo passado, neste mesmo jornal, descrevíamos a hepatite C como uma epidemia silenciosa e a doença do final da década de 90. O problema continua. Hoje, entre 100 pacientes que diagnosticamos com hepatite crônica ou cirrose hepática, 43% tem como causa a infecção pelo vírus da hepatite C.
Neste novo artigo, falaremos de uma nova doença, de uma nova epidemia mundial, também de caráter silencioso, denominada cientificamente de esteato-hepatite não alcoólica, nome difícil para uma doença também de difícil controle e tratamento.
Esteato-hepatite não alcoólica nada mais é do que um processo inflamatório crônico (persiste por muitos anos) do fígado, ocasionado por deposição de gordura, que pode ser chamado de hepatite crônica gordurosa não alcoólica e assim será sempre mencionado por nós neste artigo.
Estima-se que 3% da população mundial seja portadora desta nova doença, ou seja, aproximadamente 180 milhões de pessoas.
Uma informação médica e ética aos pacientes previamente diagnosticados através de seus médicos como portadores de esteatose hepática: esteatose hepática é uma outra doença do fígado, bem diferente da hepatite gordurosa crônica não gordurosa. Os portadores daquela primeira doença podem ficar totalmente despreocupados. Na esteatose hepática (fígado gorduroso), observa-se na ultra-sonografia apenas uma infiltração de gordura no fígado. A função bioquímica do fígado está normal, ou seja, os níveis bioquímicos das aminotransferases (transaminases) encontram-se normais e não ocorre progressão para cirrose. Por outro lado, na hepatite crônica gordurosa não alcoólica, além da infiltração gordurosa do fígado observada na ultrasonografia, tem-se aumento dos níveis bioquímicos das aminotransferases, ocorrendo, em significativa parte dos pacientes, evolução para cirrose hepática.
Do ponto de vista clínico, a hepatite crônica gordurosa é dividida em alcoólica e não alcoólica. Neste artigo descreveremos apenas a hepatite crônica gordurosa não alcoólica. É bom lembrar aos socializados que abusam do álcool que o consumo exagerado do mesmo pode provocar cirrose hepática, definida como uma das etapas finais da falência do fígado. Daí por diante, a esperança de uma vida digna estaria baseada no transplante hepático. Em breve estaremos escrevendo neste mesmo jornal sobre os efeitos maléficos do álcool para o fígado.
Descoberta no final da década de 70, a hepatite crônica gordurosa não alcoólica (sem história de abuso de álcool) teria como fatores comuns, ou seja, como causa ou causas primárias do problema, a obesidade, a dislipidemia (altas taxas de gordura no sangue), diabetes mellitus (tipo II), a perda rápida de peso, e o processo de desnutrição severa; como causas secundárias, a cirurgia (bypass jejuno-ileal) para emagrecimento (tratamento de obesidade mórbida), exposição crônica a produtos químicos, e o uso de drogas como o corticóide, e estrógeno sintético. Estudos recentes, revelam que a hepatite crônica gordurosa não alcoólica acometeria também indivíduos não pertencentes a qualquer fator de risco.
O que nos faz escrever este artigo sobre hepatite crônica gordurosa não alcoólica? Se tal doença não for diagnosticada em tempo, tratada ou controlada, 8 a 26 % dos pacientes portadores desta doença irão evoluir para cirrose hepática. E, então, o que fazer? Em primeiro lugar, reconhecer em você algum fator de risco para desenvolver hepatite crônica gordurosa não alcoólica. Entre o portadores desta nova doença, mais de 70% são obesos, mais de 75% são diabéticos e 20 a 80% dos pacientes tem dislipidemia (aumento dos lipídios, colesterol total, triglicerídios). Em segundo lugar, todo mundo que é obeso, que tem altas taxas de gordura no sangue e é diabético vai desenvolver a doença? A princípio, não, pois vários estudos sugerem que o desenvolvimento desta doença estaria relacionado a problemas genéticos. Como não sabemos se você geneticamente estaria livre de tal doença, o melhor mesmo é saber mais alguma coisa sobre a doença, como diagnostica-la, como preveni-la, e, se possível, como tratá-la ou controlá-la.
Sua incidência (casos novos) e prevalência (número de casos) na população em geral ainda é parcialmente desconhecida. Independentemente deste desconhecimento, a hepatite gordurosa não alcoólica acomete crianças acima dos 10 anos de idade, como também adultos situados na faixa etária entre 20 e 60 anos. O sexo feminino é o mais comprometido (60 a 80%) e mulheres diabéticas com idade superior há 50 anos teriam um maior risco de desenvolver tal doença. A hepatite gordurosa crônica não gordurosa na maioria dos casos é assintomática, ou seja, uma grande parte dos pacientes não sente qualquer problema. Por outro lado, alguns pacientes queixam-se de um leve desconforto (sensação de peso) no lado direito do abdome, geralmente abaixo das costelas.
Nos Estados Unidos, onde mais de 15% da população em geral é obesa, e 2,5% da população em geral tem obesidade mórbida, a hepatite crônica gordurosa não alcóolica acomete 7 a 9% dos americanos, preocupando e muito as autoridades de saúde americanos. Estima-se que aproximadamente 3,5% das crianças e adolescentes americanos sejam portadoras da hepatite gordurosa crônica não alcoólica. Criança pode ter cirrose hepática em razão de uma hepatite gordurosa crônica gordurosa não alcoólica? É obvio que sim.
Em nosso país já temos uma significativa parte da população obesa e diabética, e devemos realmente começar a ficar preocupados. Em nosso serviço médico, há mais ou menos cinco anos, começamos a diagnosticar casos de hepatite crônica gordurosa, seja em obesos, portadores de altas taxas de gordura no sangue, diabéticos e usuários de drogas tóxicas ao fígado (remédios, chás). Uma grande parte destes pacientes são adultos jovens e, por um simples erro alimentar ou de metabolismo, desenvolvem tal doença.
Como já descrito, grande parte dos pacientes com hepatite crônica gordurosa não alcoólica não apresenta qualquer sintoma da doença. Geralmente a doença é diagnosticada quando o paciente realiza exame clínico e laboratorial de rotina. No exame clínico, 70 a 90% dos pacientes apresentam fígado crescido (hepatomegalia), sendo este considerado o dado clínico mais freqüente. Nos exames laboratoriais (sangue), todos os pacientes apresentam provas de função hepática elevadas (aminotransferases). Uma grande parte dos indivíduos apresenta dislipidemia (aumento das taxas de gordura no sangue), principalmente em decorrência do aumento do colesterol total, lipídios e dos triglicerídios.
Como o diagnóstico da hepatite crônica gordurosa não alcoólica só é confirmado após a exclusão de outras causas determinantes, é necessário a realização de vários exames laboratoriais. O exame ultrasonográfico apenas informa o grau de acumulação de gordura no fígado e em hipótese nenhuma serve de parâmetro para o diagnóstico de hepatite crônica gordurosa não alcoólica. O diagnóstico correto para a confirmação da doença estaria fundamentado na realização de uma biópsia do fígado, servindo inclusive para saber o estágio (fase) da doença.
Não existe até o presente momento uma medicação capaz de curar a hepatite crônica gordurosa não alcoólica. O uso experimental de várias drogas não demonstrou resultados conclusivos. Por outro lado, a melhora do quadro clínico (redução do tamanho do fígado) e laboratorial (normalização das aminotransferases) da hepatite gordurosa crônica não gordurosa estaria baseada no controle da obesidade mediante a redução do peso, o controle do diabetes e finalmente o controle das taxas de gordura no sangue.
Este artigo foi escrito com a finalidade de alertar uma parte da população que pertence a determinados grupos de risco para desenvolverem esta nova doença, a procurar orientação médica. Seu médico é a pessoa mais indicada para orientá-lo, pois seria importante que o mesmo avaliasse sua situação e tomasse a conduta mais correta sobre o seu problema. Finalmente, dúvidas maiores sobre o artigo e a doença podem ser dissipadas através do nosso e-mail, que temos o maior prazer de lhe oferecer, fonseca@prodamnet.com.br.
Dr. José Carlos Ferraz da Fonseca:
É Pesquisador Adjunto da Fundação de Medicina Tropical do Amazonas, Professor Adjunto da Faculdade de Ciências da Saúde (Universidade do Amazonas), e médico especialista em Hepatologia (doenças do fígado). Fonte: Artigo Publicado na Imprensa Amazonense