COQUELUCHE
Solange Dourado de Andrade

“As febres acometem garotos de quatro, dez meses ou um pouco mais velhos, sendo incalculável o número de quantos já morreram. Principalmente pela tosse característica, que é geralmente chamada de quinta ou quintana, os sintomas são sérios. Os pacientes ficam livres desta tosse terrível por cerca de quatro a cinco horas e depois o paroxismo da tosse retorna, desta vez tão grave que o sangue é expelido com força pelo nariz e pela boca”.
Guillaume de Baillou (1736)

INTRODUÇÃO

A coqueluche, conhecida como tosse espasmódica, é uma doença imunoprevenível de grande importância na infância, que pode levar a complicações graves, inclusive com óbito.

A Bordetella pertussis é o agente etiológico da coqueluche, embora quadros clinicamente mais brandos possam ser causados pela Bordetella parapertussis.

Vários outros agentes etiológicos podem determinar apresentação clínica semelhante, conhecida por síndrome pertussis, como alguns tipos de adenovírus, Mycoplasma pneumoniae, Chlamydia trachomatis, Chlamydia pneumoniae, além da Bordetella bronchiseptica. O homem é o único hospedeiro da Bordetella pertussis.

DIAGNÓSTICO CLÍNICO

Clinicamente, manifesta-se ao longo de três estádios, após um período de incubação que varia de 7 a 10 dias:

DIAGNÓSTICO LABORATORIAL

O diagnóstico é eminentemente clínico, uma vez que a bactéria apresenta dificuldades laboratoriais para ser isolada, necessitando de meios específicos e imediata inoculação no meio após a coleta. Além disso, não está presente no sangue, portanto a hemocultura é quase sempre negativa.

O diagnóstico baseia-se na suspeita clínica de surtos de tosse paroxística seguida de guinchos e vômitos, associada à presença de leucocitose (acima de 20.000 céls./mm3), com linfocitose.

Lembrar que em crianças pequenas, em especial no primeiro ano de vida, o quadro clínico é mais grave, porém mais inespecífico e os guinchos podem não estar presentes. A apnéia e a cianose são comuns nesta faixa etária e complicações neurológicas como crises convulsivas podem ocorrer.

TRATAMENTO

MEDIDAS GERAIS:

ANTIBIOTICOTERAPIA: a escolha terapêutica faz-se pela eritromicina, pela sua boa penetração nas vias respiratórias. Vale ressaltar que o estolato de eritromicina atua melhor, uma vez que o estearato e o etilsuccinato não atingem concentrações séricas favoráveis à erradicação da bactéria, levando a falhas terapêuticas. A dose recomendada é de 35 a 50 mg/kg/dia VO 6/6h, por 14 dias, com dose máxima de 2g/dia. Iniciar o mais precocemente possível a terapia, a fim de atenuar a doença, de preferência até a fase catarral. Na fase paroxística, apesar de não diminuir o curso da doença, o uso do antibiótico reduz a transmissibilidade. Outras opções terapêuticas são as tetraciclinas (em crianças acima de 8 anos) ou o cloranfenicol. Não se deve utilizar ampicilina, pois a mesma não atinge boas concentrações em secreções das vias respiratórias.

DROGAS DE SUPORTE: corticosteróides podem alterar a gravidade e o curso da doença (hidrocortisona 30 mg/kg/dia IM, 6/6h por 2 dias); os anticonvulsivantes diminuem o número e a intensidade dos acessos paroxísticos (fenobarbital: ataque com 15 mg/kg/dose 1x/dia e manutenção com 6mg/kg/dia 6/6h); durante a crise convulsiva, utilizar diazepam 0,3 mg/kg/dose IV sem diluir, lentamente; broncodilatadores (salbutamol 0,3-0,5 mg/kg/dia VO 8/8h).

LEITURA SUGERIDA

1. FUNASA. CENEPI. Guia de Vigilância Epidemiológica. 2002. Disponível em: http://www.funasa.gov.br/pub/GVE.htm. Acesso em: 05 jan 2003.

2. VON KONIG, C. H.; HALPERIN, S.; RIFFELMANN, M., et al. Pertussis of adults and infants. Lancet Infect Dis, v. 2, n. 12, p.744-50, 2002.

3. SALIOU, P.; AJJAN, N.; GUERIN, N. Efficacy and tolerance of vaccinations in premature infants. Arch Pediatr, v. 9, n. 6, p.629-37, 2002.

4. DONATO, L.; GAUGLER, C.; WEISS, L., et al. Chronic cough in children: Signs of serious disease and investigations. Arch Pediatr, v. 8 Sup. 3, p.638-44, 2001.