ENTEROPARASITOSES E FILARIOSES
Antônio de Matos Tavares

“O que eu me programei para fazer aqui foi apresentar um tratado dos vermes, explicar como eles se reproduzem dentro de nós, descrever os sintomas, os efeitos, os prognósticos e indicar os melhores tratamentos para esta doença”.
Nicholas Andry de Bois-Regard (1700)

INTRODUÇÃO

As parasitoses intestinais são endemia importante nos países em desenvolvimento, particularmente naqueles situados na faixa equatorial, onde as condições climáticas se aliam ao baixo nível sócio-econômico, saneamento básico deficiente, má educação sanitária e outros fatores relacionados com a pobreza.

Os inquéritos coproparasitológicos realizados através do tempo, no Estado do Amazonas, em populações tanto de áreas urbanas como de áreas rurais, têm mostrado prevalência sempre alta para a maioria dos parasitas intestinais.

Entre as parasitoses causadas por helmintos, houve um declínio significativo da prevalência após a introdução dos benzimidazólicos no tratamento desses pacientes, a partir da década de 60, situação que não foi sustentada, em razão de não haver continuidade do acesso aos medicamentos específicos, além da falta de infra-estrutura, que deveria acompanhar o progresso coletivo.

As parasitoses intestinais ainda são crescentes entre as pessoas tanto de área urbana como de comunidades ribeirinhas, fato que tentamos explicar pelo aumento desordenado da população, principalmente na periferia dessas aglomerações.

A seleção de uma droga antiparasitária deve obedecer a determinados critérios que ofereçam maior número de vantagens, de acordo com cada caso, como: atividade terapêutica comprovada, facilidade de administração, amplo espectro de atividade, uso em dose única ou em esquemas de curta duração, baixo custo e possibilidade de emprego em tratamento em massa e de uso profilático.

DIAGNÓSTICO CLÍNICO

As enteroparasitoses não possuem quadro clínico característico, podendo evoluir com diarréias agudas ou crônicas ou até mesmo obstipação intestinal, seguidas de sintomas inespecíficos, como cólicas abdominais, epigastralgia, inapetência ou perversão do apetite.

Quando houver diarréia, é importante se tentar estabelecer o diagnóstico de diarréia alta ou baixa. Diarréias de pequena quantidade, com a presença de muco, pus ou sangue, tenesmo, sem restos alimentares, devem ser caracterizadas como baixa. Nestes casos, deve-se pensar em amebose ou infecção bacteriana. As diarréias de grande volume, sem muco, pus ou sangue, sem tenesmo e com restos alimentares caracterizam a diarréia alta, devendo-se pensar em giardose, ancilostomose ou estrongiloidose. Na presença de diarréia em pacientes com SIDA, deve-se fazer o diagnóstico diferencial com as coccidioses.

Como o diagnóstico clínico não é preciso na maioria dos casos, além do fato de haver freqüentes associações de parasitas, indica-se de rotina a realização do exame coproparasitológico.

As filarioses observadas em nossa região geralmente determinam quadros assintomáticos ou oligossintomáticos (com febre, artralgia, cefaléia e mal-estar geral). Recentemente temos observado quadros clínicos mais exuberantes quando há infecção pela Mansonella ozzardi, com síndrome febril indiferenciada similar à crise malárica.

A oncocercose se restringe ao extremo norte do país, entre índios Yanomami, podendo levar à cegueira. A presença de nódulos cutâneos é freqüente.

INDICAÇÕES CLÍNICAS E MÉTODOS DO EPF

INDICAÇÃO
MÉTODOS
ESTRUTURAS
Ascaridose
Lutz (sedimentação espontânea)
Ovos
MIFC (sedimentação por centrifugação)
Ancilostomose
Lutz (sedimentação espontânea)
Ovos/larvas
MIFC (sedimentação por centrifugação)
Willis
Rugai
Baermann-Moraes
Trichiurose
Lutz (sedimentação espontânea)
Ovos
MIFC (sedimentação por centrifugação)
Kato-Katz (quantitativo)
Esquistossomose
Lutz (sedimentação espontânea)
Ovos
MIFC (sedimentação por centrifugação)
Kato-Katz (quantitativo)
Estrongiloidose
Baermann-Moraes
Larvas
Rugai
Enterobiose
Graham (fita adesiva)
Ovos
Teniose
Tamização
Ovos
Graham (fita adesiva)
Giardose
Pesquisa direta de trofozoítos
Cistos
Faust (centrífugo-flutuação)
Lutz (sedimentação espontânea)
MIFC (sedimentação por centrifugação)
Amebose
Pesquisa direta de trofozoítos

Cistos

Trofozoítos

Fezes formadas: (idem a giardose)
Fezes diarréicas: hematoxilina férrica
Coccidioses
Faust, Ritchie, Lutz
Oocistos
Kinyoun (colaboração)

O diagnóstico específico da oncocercose deve ser feito a partir da coleta de um fragmento superficial de pele (retalho cutâneo) da região mais afetada. Este material é colocado sobre uma lâmina de vidro, acrescentada uma gota de solução salina, protegido por lamínula e levado ao microscópio para observação direta das microfilárias em movimento.

Quanto à mansonelose, o melhor método diagnóstico é a gota espessa, com coloração pelo Giemsa e exame microscópico. Pode-se ainda utilizar o método de concentração de Knott, que consiste na diluição do sangue em formol a 2% (na proporção de 1:10) e centrifugação do material, seguida de coloração do sedimento pelo Giemsa e análise microscópica.

TRATAMENTO

Na indicação da terapêutica anti-helmíntica, os seguintes cuidados devem ser observados:

ASCARIDOSE

DROGA
DOSE
DURAÇÃO
OBSERVAÇÃO
Levamisol

Adulto: 150mg

1-8 anos: 80mg

<1 ano: 40mg

Dose única Repetir após 14 dias
Mebendazol 100mg 12/12h por 3 dias Repetir após 14 dias; quando há outras parasitoses associadas, usar o dobro da dose.
Albendazol 400mg (10mg/kg) Dose única Repetir após 14 dias
Piperazina (citrato ou hexaidrato) 6 g/dia (50-100mg/kg) Dose única Utilizar em caso de semioclusão intestinal juntamente com outras medidas (dieta zero, hidratação venosa, antiespasmódicos, óleo mineral e sonda nasogástrica).

ANCILOSTOMOSE

DROGA
DOSE
DURAÇÃO
OBSERVAÇÃO
Mebendazol 100mg 12/12h por 3 dias Repetir após 14 dias; quando há outras parasitoses associadas, usar o dobro da dose
Albendazol 400mg (10mg/kg) Dose única Repetir após 14 dias

ENTEROBIOSE (OXIUROSE)

DROGA
DOSE
DURAÇÃO
OBSERVAÇÃO
Pamoato de pirvínio 700mg (10mg/kg) Dose única Repetir após 14 dias
Mebendazol 100mg 12/12h por 3 dias Repetir após 14 dias; quando há outras parasitoses associadas, usar o dobro da dose
Albendazol 400mg (10mg/kg) Dose única Repetir após 14 dias

ESTRONGILOIDOSE

DROGA
DOSE
DURAÇÃO
OBSERVAÇÃO
Cambendazol 360mg (5mg/kg) Dose única Repetir após 14 dias
Tiabendazol 1g (50mg/kg) ou 500mg (10-20mg/kg/dia)

Dose única

12/12h por 3 dias

A dose única é utilizada no tratamento em massa.

Repetir após 14 dias.

Casos de super-infecção devem ser tratados por 30 dias.

Albendazol 400mg (10mg/kg/dia) 1x/dia por 3 dias Repetir após 14 dias
Ivermectina 12mg (0,2 mg/kg/dia) 1x/dia por 3 dias Utilizar em pacientes com SIDA ou quando associada a ectoparasitoses

Os fatores de risco para super-infecção por estrongilóides são: maiores de 65 anos de idade, portadores de DPOC, uso crônico de bloqueadores H2 ou corticosteróides.

ESQUISTOSSOMOSE

DROGA
DOSE
DURAÇÃO
OBSERVAÇÃO
Praziquantel 50mg/kg Dose única
-
Oxanmiquine 1g (15mg/kg) Dose única
-

HIMENOLEPIOSE

DROGA
DOSE
DURAÇÃO
OBSERVAÇÃO
Praziquantel Adulto: 1800mg Dose única
-
4-8 anos: 1200mg
<4 anos: 600mg

TRIQUIROSE

DROGA
DOSE
DURAÇÃO
OBSERVAÇÃO
Oxipirantel 1g (6-8mg/kg) Dose única
Repetir após 14 dias
Mebendazol 100mg 12/12h por 3 dias Repetir após 14 dias; quando há outras parasitoses associadas, usar o dobro da dose
Albendazol 400mg (10kg/kg) Dose única Repetir após 14 dias

AMEBOSE

DROGA
DOSE
DURAÇÃO
OBSERVAÇÃO
Metronidazol 500mg (35mg/kg/dia) 8/8h por 5 dias 53% de cura
Secnidazol 2g (30mg/kg/dia) 12/12h por 2 dias 73% de cura
Tinidazol 2g (30mg/kg/dia) 12/12h por 2 dias 55% de cura
Mentha crispa (Giamebil Plus) 5mg/kg/dia 12/12h por 3 dias 43% de cura
Teclosan 25mg/kg/dia 8/8h por 1 dia Tratamento de formas comensais
Etofamida 15mg/kg/gia 12/12h por 3 dias Tratamento de formas comensais

Só há indicação de tratamento de amebose em caso de sintomas sugestivos da doença. Não há necessidade de se tratar o paciente assintomático apenas com formas comensais (cistos) ao EPF.

Recomenda-se o uso de droga de ação intraluminal (etofamida ou teclosan) após o uso do metronidazol ou secnidazol, para erradicação das formas císticas do parasita, a fim de se impedir recidivas ou falhas terapêuticas.

O metronidazol está disponível gratuitamente, devendo ser prescrito, preferencialmente, para pacientes com baixo poder aquisitivo.

BALANTIDIOSE

DROGA
DOSE
DURAÇÃO
OBSERVAÇÃO
Metronidazol 20mg/kg/dia 8/8h por 7 dias -
Tetraciclina 30mg/kg/dia 6/6h por 10 dias -

BLASTOCISTOSE

DROGA
DOSE
DURAÇÃO
OBSERVAÇÃO
Metronidazol 500MG (35mg/kg/dia) 8/8h por 10 dias Repetir após 14 dias

CICLOSPOROSE

DROGA
DOSE
DURAÇÃO
OBSERVAÇÃO
Sulfametoxazol+Trimetoprim 800+160mg (40+8mg/kg/dia) 12/12h por 7 dias -

CRIPTOSPORIDIOSE

DROGA
DOSE
DURAÇÃO
OBSERVAÇÃO
Azitromicina
15-20mg/kg/dia
1x/dia por 6 dias
-
Espiramicina
50mg/kg/dia
6/6h por 14 dias
-
Roxitromicina
5mg/kg/dia
12/12h por 28 dias
-

GIARDOSE

DROGA
DOSE
DURAÇÃO
OBSERVAÇÃO
Secnidazol 2g (30mg/kg/dia) 12/12h por 2 dias
-
Tinidazol 2g (30mg/kg/dia) 12/12h por 2 dias
-
Metronidazol 15mg/kg/dia 8/8h por 7 dias
-
Albendazol 10mg/kg/dia 1x/dia por 5 dias
-

ISOSPOROSE

DROGA
DOSE
DURAÇÃO
OBSERVAÇÃO
Sulfametoxazol+Trimetoprim 50mg/kg/dia 12/12h por 28 dias
-

MICROSPORIDIOSE

DROGA DOSE DURAÇÃO OBSERVAÇÃO
Albendazol 10mg/kg/dia 1x/dia por 5 dias O tempo de tratamento fica a critério médico

ONCOCERCOSE

DROGA
DOSE
DURAÇÃO
OBSERVAÇÃO
Ivermectina 0,2mg/kg Dose única Retratar a cada 6 meses ou a cada ano por 12-15 anos

MANSONELOSE

DROGA
DOSE
DURAÇÃO
OBSEVAÇÃO
Ivermectina 0,2mg/kg Dose única Utilizar somente para os pacientes que apresentem alta parasitemia ou que tenham manifestações de febre sem causa aparente, sensação de frio em membros inferiores e eosinofilia em sangue periférico

 

LEITURA SUGERIDA

1. MIAO, Y. M.; AWAD-EL-KARIEM, F. M.; GAZZARD, B. G. Opportunistic protozoan diarrhoea. J HIV Ther, v. 7, n. 1, p.17-20, 2002.

2. KATZ, D. E.; TAYLOR, D. N. Parasitic infections of the gastrointestinal tract. Gastroenterol Clin North Am, v. 30, n. 3, p.797-815, 2001.

3. CIMERMAN, S.; CIMERMAN, B.; LEWI, D. S. Enteric parasites and aids. São Paulo Med J, v. 117, n. 6, p.266-73, 1999.

4. SARINAS, P. S.; CHITKARA, R. K. Ascariasis and hookworm. Semin Respir Infect, v. 12, n. 2, p.130-7, 1997.

5. GUERRANT, R. L. Cryptosporidiosis: An emerging, highly infectious threat. Emerg Infect Dis, v. 3, n. 1, p.51-7, 1997.

6. CROFT, S. L.; WILLIAMS, J.; McGOWAN, I. Intestinal microsporidiosis. Semin Gastrointest Dis, v. 8, n. 1, p.45-55, 1997.

7. KHUROO, M. S. Ascariasis. Gastroenterol Clin North Am, v. 25, n. 3, p.553-77, 1996.

8. OTTESEN, E. A.CAMPBELL, W. C. Ivermectin in human medicine. J Antimicrob Chemother, v. 34, n. 2, p.195-203, 1994.

9. LIU, L. X.; WELLER, P. F. Strongyloidiasis and other intestinal nematode infections. Infect Dis Clin North Am, v. 7, n. 3, p.655-82, 1993.